O FINO DO BIGODE

Preciso voltar ao Porto com mais tempo. É que andei por lá por pouco mais do que 24 horas e, assim, não tive tempo de aprofundar as pesquisas em tornos do FINO, que, pra quem não leu o primeiro texto aqui do Loiras de Bigodes (nem a correção que o Amílcar fez nele), é como se diz, no norte de Portugal, imperial; que, como já deve ter ficado entendido, é como se diz chope pelos lados de cá do Atlântico.

Ah, um fino a beira do Douro.

Pois, claro, tentei fazer uma gloriosa descoberta do fino, suas diferenças, possíveis peculiaridades. Assim, perguntei num bar qual cerveja tinha e a resposta foi Sagres. No outro, Sagres e Super Bock; em mais um, Super Bock; e aí, de tanto caminhar e perguntar, eu já tava me sentindo como naquele velho comercial do Teem, provocando minha sede até não aguentar mais (confere ali embaixo esse clássico). E, óbvio, eu ainda ia pedir um bolito de bacalhau pra acompanhar a pesquisa, entonces não havia mais como adiar. Não havia mais como procurar o lugar, o rótulo, o momento ideal. A fisiologia imperou (se fosse em Lisboa, talvez eu aproveitasse pra dizer, imperiou): sentei num bar na beira do rio e disse Opá, da-me lá um pastel de bacalhau e um FINO se faz favor? E, momento mágico, o garçom agiu com absoluta naturalidade. Eu disse FINO e ela já tava lá tirando o meu chopinho. Bom, o sabor de novo foi até aí, porque depois veio a já-mais-que-conhecida , porém competente, Super Bock, razoavelmente gelada.

Eis que faço um pedido de utilidade individual: se, por acaso, algum amigo do Porto e região ler essas linhas e tiver indicações de marcas, rótulos, que são só do lado de cima do país, por favor, deixa um comentário aqui. Anotarei e, numa próxima e mais séria investida pra esses lados de Portugal, buscarei experimentar a recomendação, nem que vá ao super, ao armazém, pra comprar e saber o verdadeiro sabor do fino. Que, tenho certeza, harmonizará à perfeição com um crocante bolinho de bacalhau do Porto.

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Les Loirás de Bigodês

Saca o elenco do espetáculo

Ah, Paris e a Torre Eiffel , os boulevards, o Sena, o glamour, a elegância e os chopin – por favor, leia chopã e capriche no biquinho que é como eu acho que uma justiça divina devia obrigar os franceses a dizer biere de pression. Pois os chopin (lembre-se, chopã) que me surpreenderam numa viagem de quatro dias a Paris.

Confesso que parti pra lá apegado ao clichê e sem medo de seguir à risca. E que, por isso, a ideia, ainda mais com um bom frio, era beber os bons vinhos franceses (pra deixar claro que eu não tinha medo do clichê). Mas aí, mais do que uma cerveja específica, começou a me chamar a atenção a quantidade de gente curtindo o seu chopinzinho no final da tarde, no começo da noite, na noite, o tempo inteiro. E também a qualidade dos chopin tirados por lá. Vendo as marcas das bombas de chopin parisienses entendi porque é que acham essa cidade glamourosa. Que Chanel, o quê? Que Quartier Latin, Champs Elysées o quê? Meu amigo: bar com Leffe tirada na hora, tás me entendendo? Não é Brahma, não é Nova Schin, não é Sagres, é mais que Heineken, é Leffe, meu chapa. Isso sim é glamour de tomar o glorioso primeiro gole com mindinho esticado e perna cruzada. Claro que tomei francesas – nenhuma assim, nossa, vamos registrar e fazer biquinho pra elogiar – , como a Saint Tomer e a Fischer, mas foram esses locais, muitos deles que sequer se diziam dedicados à cerveja, porém, assim, tirando grandes marcas como quem tira uma Kaiser, que me encheram os olhos e os copos – que depois esvaziei. E aí, veio a cerveja do bolo: no bairro de Montmartre, numa ruazita onde todo mundo faz peregrinação pra ir no bar da Amélie Poulain e comer crème brulée e tirar fotos dos anõezinhos, eu dou a dica: segue mais um poquinho, 50 metros, até a esquina e lá está o motivo certo pra se estar nessa região de Paris: o magnânimo Autor du Moulin. Companheiros, que bar. E é como eu disse: ele se apresenta como pub, mas também bar de vinhos e também restaurante, lembrando muito aqueles empreendimentos brasileiros que se dizem trattoria, churrascaria e rodízio de sushi. Porém o Autor du Molin, pelo menos na cerveja, se garante. E como. Começa pela isca do lado de fora, que me fisgou: o luminoso não ostenta o logotipo da Heineken, ou da Stella, que não seria nada mal. Mas, nada mais, nada menos, que da Grolsch (cerveja sobre a qual eu tenho uma tese: é tão boa, que eles fizeram esse nome de dar câimbra nas cordas vocais pra lembrar a gente de que é impossível pedir essa cerveja sem querer enrolar a língua de tanto beber). Pois assim, o simpático bar, muito blasemente, deixa esse logo ali do lado de fora como quem diz Grolsch aqui é Coca, é Brahma, é que nem água. Mas entramos na hora. E aí as marcas sobre as torneirinhas de chopin, rapaz, que desbunde. Quer tomar um chopinzinho aqui? Então vê aí Grolsch, Grolsch Premium Weizz, Copère (que eu não conhecia), Guinness e a Delirium Tremens – a cerveja do elefantinho rosa, que já foi consagrada a melhor do mundo.  Vem cá, isso é tomar um singelo chopinzinho no balcão, como qualquer mortal, cansado e com sede? Bem, foi o que eu fiz, monsieur. Claro, sem petiscos pra acompanhar, que iam me servir caviar dourado da Tasmânia e eu ia falir. Mas fiz, com muito orgulho e um primeiro gole primoroso.

Portanto, taí: Paris, cidade luz e, agora, pra mim também, cidade pub.

E todas essas cervejas harmonizam que é uma beleza com um bolinhô du bacalhô

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LEMBRANÇAS E APRESENTAÇÕES

Se bem me lembro, anotei isso em outubro de 2011.

Esse negócio de escrever sobre cervejas não tá fazendo bem pra minha memória: esses dias me dei conta de que existe uma cerveja que já tomei umas quantas vezes, já faz um bom tempo que conheço e gosto, e eis que nunca lembro de registrar aqui. Sempre que bebo, esqueço.

Bom, mas façamos justiça e em grande estilo:

“a democracia não deve tolerar comportamentos e ideologias autoritárias e totalitárias,(..) caso do comunismo”

“A chefe do governo alemão, Angela Merkel, produziu declarações ignorantes”

” está-me a fazer sinal aí porque? Que estão chineses ai? É mesmo bom que eles vejam porque não os quero aqui»”

“Há aqui uns bastardos na comunicação social do Continente. Digo bastardos para não ter que lhes chamar filhos da puta”

Com essas declarações, apresento Alberto João Jardim, o polêmico e folclórico governante da Ilha da Madeira desde 1975, que, com essas porradas verbais e uma série de outras coisas, se faz o símbolo dessa região autônoma de Portugal. Mas força por força, eles poderiam ter um símbolo bem melhor: a esquecida (mas agora lembrada) cerveja Coral, a loira de bigodes lá da Ilha da Madeira. Tem sabor tão forte quanto qualquer asneira desse sujeito, mas com uma diferença: ao contrário das palavras de Alberto João Jardim e das confusões com a dívida e o governo central que ele apronta, a Coral é facílima de engolir. Sério, os portuguesas do continente que me desculpem, mas acho que esse produto da renegada ilha é a melhor cerveja portuguesa até agora. Tem à venda só no Corte Inglês, por 65 centavitos de euro uma long net de 300ml. E pra provar que é uma descendente da contundência do seu governante, traz potentes 5,3% de álcool. Não sei se é esse motivo, mas acho ela bem mais consistente e saborosa do que a média daqui e ela passa sempre com palmas pelo teste do primeiro gole. Pena que não encontro em bares.

Mas é isso: justiça feita à grande Coral.

Harmoniza bem com bolinho de bacalhau made in Ilha da Madeira

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SOLIDARIEDADE NA CRISE (E NO TROCADILHO)

Às vezes me condeno um pouco quando tomo uma cerveja alemã, belga, estrangeira por aqui. Gosto da ideia de consumir produtos portugas e pensar que, do jeito que eu posso, ajudo o país a tentar sair da crise. Sério. Por isso, me consolo desse deslize que acabo de cometer, ao comprar mais uma importada no playcenter, com o seguinte raciocínio: na Grécia, a coisa ta russa, tá pior que aqui. E, ainda por cima, sempre que sai uma boa notícia grega, é bom sinal pra Portugal. Portanto, pela solidariedade e pela curiosidade, como resistir a uma cerveja grega?

E acabou-se a seriedade.

Porque o nome da cerveja é, nada mais, nada menos, do que Mythos. Ah, para, seu grego. Vocês tem uma das maiores tradições em fornecimento de palavras, nomes, prefixos e sufixos do ocidente. Não dava pra criar mais uminha? Chamar uma cerveja grega de Mithos é como lançar uma brasileira chamada Samba, Pelé, Carnaval. Pode funcionar no exterior, mas que é besta, ah, é besta. Além do que é um problema pra nós, amantes do trocadilho. Se o nome da cerveja fosse grego pra mim, algo como μπύρα, pronto, eu bebia, gostava e deu. Mas sendo a Mythos, vou ter que dizer que é forte, apolínea? Que essa cerveja deve ser o calcanhar de Aquiles de todo grego que gosta de uma geladinha? Que é a bebida ideal pruma filosofia de buteco? Que, quando acaba a Mythos no bar, é a verdadeira tragédia grega? Ou, se eu não tivesse gostado, que ela era um cavalo de Tróia, um presente de grego? Ah, Mythos, por que você foi se chamar assim?

Bom, mas o que importa é que, se depender de uma cerveja de qualidade pra exportar, vender por 1,09 euro e sair da crise, ou de uma cervejinha com 5% de álcool, saborosa, com um amargo bem marcante pra esquecer os maus momentos, eureka: descobrimos uma boa opção. Gostei da Mythos.  Pode ir pro olimpo das boas cervejas.

Harmoniza bem com um bolinho de bacalhau homérico.

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Blonde avec moustache

Que rótulo

Uma teoria: se um belga (um alemão ou um tcheco também) resolver fazer um feijão ou cozinhar um mocotó bem fedorento e, lá pelas tantas, entre um ingrediente e outro, se distrair, ele vai acabar fazendo uma cerveja. E boa. Sério, levanta a mão (e pede mais uma) quem aqui já tomou uma cerveja belga, alemã ou tcheca que era ruim. Uma ruim dessa procedência vira bem boa no Brasil.

Todos esses preâmbulos porque, o que que eu vou dizer da Jupiler, camarada? Que eu comprei lá no playcenter porque (sério) achei que era uma cerveja chamada Júpiter? (não, eu não compro bêbado). Que me chamou atenção esse rótulo que faz lembrar, sei lá por que, um Mustang num filme do Tarantino? Ou que tem uma das tampinhas mais sensacionais que eu já vi? (por que estampar desse tamanho o volume da garrafa, designers)? É que, se eu não disser isso, se não preambular, vou dizer o óbvio: a Jupiler é boa. Não é sensacional. Mas, se ela estivesse localizada não no Corte Inglês, mas ali no Zaffari, entre a Antártica e a Polar, pertinho da Kaiser, ela se transformaria automaticamente em ótima. De resto, é uma biere blonde, que é como os belgas dizem uma loira, uma pilsen, uma ceva. Tem 5,2% de álcool, custou 2,29 euros, não se salienta por ser de um dourado raro, é até normal servida no copo, mas, no primeiro gole, faz a gente dizer “Ah, os belgas”. Acho que é basicamente isso.

Harmoniza bem com um bolinho de bacalhau portuga.

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Loira portuguesa e piada de português

Sagres Puro Malte: não precisa botar roupa de missa pra beber.

Demorei um tanto pra encarar a Sagres Puro Malte, lançamento que a Sagres fez na virada desse ano. E acho que demorei bastante por causa de todo o bom humor do lançamento. Cartazes com uns gajos vestidos de escoceses, com olhares felumáticos, mó estilo lord, segurando seus copos como se fosse uma quintaessência etílica e, legendando tudo isso, os dizeres muito sapecas: “Somos apreciadores: Sagers Puro Malte: os whiskies que se cuidem”.

Como não é uma cerveja pra beber on the rocks, como não é uma cerveja típica escocesa (nem sei se existe), como não é uma cerveja com 20, 30% de álcool, a sacadinha devia-se ao fato de ser puro malte, como os bons scotchs. Rarará, diria o José Simão. Boa essa, hein, perguntaria eu Mas, bom, apesar de tudo, é uma edição limitada, sou um curioso e, tá, comprei umas long nets a setenta e poucos centavos, peguei o folhetinho (eles fizeram um folhetinho ensinando a apreciar, instruções muito semelhantes a servir uma cerveja de trigo, porém numa taça arredondada) e fui comprovar se eu também era apreciador.

Buenas, camaradas, azedumes meus a parte, é sim uma boa cerveja. Digamos que me lembrou um chope da Eisenbahn bem tiradito, que eu sempre acho uma boa pedida. Essa Sagres top de linha tem sabor, consistência, a cor dela é bonita cor. Mas, calma lá também. A espuma que eles ficam cheio de nove-horas pra explicar como servir direito, é preciso frisar, é pra fotografia. Cenográfica. Serviu, tá lindo, dois dedos, toda espumosa. Mas foi cerrar o olhinho, fazer cara de gourmet, dar aquela cheiradinha nos aromas que eles nos prometaram e, putz, cada a espuma que tava aqui? Começou a baixar e pode crer que ela não vai proteger o lúpulo aromático e os cereais selecionados que eles dizem que compõe a receita.

Então assim: aprecio o sabor da cerveja, plenamente retomável. Não aprecio o bom humor e o fru fru dela. Dá pra tomar tranquilamente no gargalo da long net vendo futebol. Mas também não sou nenhum degustador – e jamais serei.

Harmoniza bem com: bolinho de bacalhau 100% norueguês frito em azeite extra-virgem.

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PRETEOU PRAS LOIRAS

Antes que o inverno acabe e digam que eu não tenho sensibilidade, que eu sou um grosso, que eu não sei tomar a bebida certa na hora certa, aqui ó: sim, tomei cerveja preta, escura, stout no inverno lisboeta. E duas. Rapaz, Sagres e Super Bock são família completíssima, tem cunhado, nora, papagaio, gato e primo distante. As duas marcas tentam abraçar tudo o que é tipo de cerveja.

Inclusive a cerveja típica do inverno.

No caso da Sagres, no canto direito do ringue, pesando 220 (ou 330ml – dependendo da embalagem) e com 4,1% de volume alcoólico, ela, a Sagres Preta. E, do outro lado, pesando os mesmos 220ml (idem – idem), com seu potente 5,1% de álcool, ela, a Super Bock Stout.

Fosse um filme do Rock, a Sagres, com seu nomezinho mais simples, com sua humildade, ganharia o confronto frente à pretensiosa Stout, não? Fosse Tyson versus Holyfield, a Bock, mais forte, tomando mordida na orelha e tudo, derrubava o baixinho, não?

Façam suas apostas.

Ih, não deu tempo, as garrafinhas eram pequenas e eu já bebi tudo.

Bom, seguinte: nenhuma Guiness, nenhuma Murphy’s, até porque não estamos em nenhuma Irlanda. Mas, olha, fomos bem até. Acho que as duas, fizeram um combate honroso, com bons gol(p)es e chego a dizer que não ficariam mal entre as brasileiras Xingu, Brahma e, lógico, dariam uma surra antológica na Antártica Malzibier que, se não tivesse álcool, era coisa de dar pra criança, de tão doce que é.

Pois bem, mas, entre as lusas, informo que aqui não é Hollywood não, cerveja não é caixinha de surpresas e deu a lógica. Se a Super Bock loira é melhor, se a Super Bock tem maior volume alcoólico, se a Super Bock estufa o peito e diz com english accent que é Stout e não uma singela Preta, bem, coerentemente, preteou pra Sagres. A Super Bock é melhor sim. A Sagres é razoável e tal, mas, ainda mais bebendo uma depois da outra, dá pra ver que botaram uma pitadinha de açúcar pra ficar mais gostosinha, mais pop. E cerveja escura, amigos, não é pop. É Black Power, Black Panther. E a Super Bock, como parece fazer em todos os segmentos, é mais forte, é mais amarga e, inclusive, tem uma espuma mais respeitável. É mais cerveja. Um nocaute no, sei lá, sexto round.

Harmoniza bem com: bolinho de bacalhau

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MENOS ADJETIVOS, POR FAVOR

The top, premium and special quality beer

The top, premium and special quality beer

Um passo de cada vez. Me chamo Reginaldo e estou há dez dias, treze horas e quinze minutos sem beber cerveja marca-própria. Deixar o underground não é fácil. E talvez seja por isso que eu não resisti e, no dia em que comprei a marca-própria do Pão de Açúcar, quando vi esse bibelô do mau gosto na prateleira, uma única garrafinha solitária, desprovida de qualquer atrativo que fizesse alguém escolher ela e não outra – nem o preço dela dava pra ver – recolhi pro meu cestinho essa cerveja vira-lata.

Talvez essa seja a melhor designação pra Top Beer. Vira-lata. Ou cerveja genérica. Uma tubaína, senhores. Começa por esse glorioso nome, ícone da inspiração, indício inquestionável de criatividade e entendimento do universo da cerveja: Top Beer. Me lembrou, ainda mais com esse rótulo faceiro de letras sorridentes, produtos consumidos pelos personagens da Turma da Mônica ou de novela quando não tem merchandising.

Buenas, mas a curiosidade matou o gato e a sede também.

Paguei 0,22 euro pela Top Beer de 220 ml  e tomei ela num sábado ou domingo de tarde. E aí? Olha, deveria se chamar não Top, mas apenas Beer. Não The Beer ou qualquer outro artigo, adjetivo ou advérbio que pudesse qualificar. É beer e nada mais. O que não é um elogio, mas também não é uma reclamação. Ela pode se esforçar, dizer que é premium, special quality, o caramba. Mas não, gente. Até vamos fazer uma teorizinha de balcão: quanto mais adjetivos uma cerveja estampa no rótulo, provavelmente menos serão os adjetivos proferidos pelo bebedor. A (Top) Beer, portanto, é daquelas cervejas que, se tiver bem geladinha, tu com sede e um amendoinzinho, joia. Ok. Mas ela, por si, não faz a diferença. Ah, mas é melhor que Kaiser Summer.

Harmoniza bem com: bolinho de bacalhau do Rei do Bolinho de Bacalhau

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Um brinde ao fim da chinelagem

Engraçado isso, mas a chinelagem por aqui vai terminar justo no carnaval – que é quando eu fui ensinado na escola que a chinelagem começava. Bom, mas fato é que, a não ser que eu invista num transtorno obsessivo compulsivo e vá buscar supermercados fora de Lisboa, ao que me parece, não tem mais cerveja marca-própria no meu raio de ação.

Olha a Holbrand aí, gente. Chora, designer.

E, pra fechar a conta nesse período momesco, trago à luz essa belezura aqui. Vai dizer que essa cosa mucho loca que é a embalagem da apoteótica Holbrand não parece aquelas camisteas que os presidentes das escolas de samba usam? Uma águia, o nome da escola com brilhos, umas rajadas de cor, patrocinadores, uma frase empolgada, tudo jogado na camiseta que nem confete. Pois é, Holbrand, brewed in Holand, dutch lager, imported, cerveza, cerveja, birra, tudo isso gritando aos olhos: Olha a marca próprio do supermercado Pão de Açúcar aí, gente.

Pois essa cevejota que, confesso, pelo tipão de camiseta de time de segunda divisão, me pareceu que traria um gosto amargo (não de cerveja) pra última incursão ao submundo marca-própria, até que ela não decepcionou. Claro, não mereceria aquele locutor cariocão da apuração do desfile das escolas de samba do Rio dizendo “Unidos de Holbrand, deishhhh”. Mas também não tá abaixo da média. Aliás, tem dois méritos até. Quando teu olho consegue parar em um ponto daquele carnaval que é a latinha e vê que a cerveja tem 4,7% de álcool, dá pra pensar, bah, fraquinha, aguada, sem graça. Mas até que não. Melhor que Kaiser Summer (não que isso mereça palmas. Guaraná também é. Mas podia ser pior). E o outro mérito é a espuma. Servi no copo e fiquei olhando, fiquei olhando, fiquei olhando e ela não baixou (e não tava quente). É claro que não é cremosa. Tá mais pra espuma de detergente que pra de creme de barbear. Mas ainda assim, no mundo da marca-própria, caso raro. Mas, ah, sim, 49 centavitos. Embora barato se converter pra Real, pros padrões daqui, não é não. Inflacionado esse preço. Se viesse o cariocão aqui dar a nota pro quesito cushto x benefício, diria: treishhh.

É isso. Um mês e meio chafurdando no que o undergorund marca-própria podia me oferecer, sobrevivi, descobri a Argus e, agora, adivinhem, tou louco pra tomar uma cerveja.

Harmoniza bem com: bolinho de bacalhau com dezessete opções de molhos

P.S: Antes que crie confusão, esse super Pão de Açúcar não tem nada a ver com a rede brasileira. É dum grupo chamado Auchan, que também tem o Jumbo. E não faço a mínima ideia do porquê desse nome. Mas o Google é da casa, pode pesquisar.

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PARAFRASEANDO O JORNALISTA BRASILEIRO (OU: NÃO COMPRE COM MODERAÇÃO)

Uma garrafinha de Argus? Só comprando seis, camarada.

Bem, pra começar esse comentário, eu teria que falar como o jornalista-brasileiro e dizer que a Argus seria um bom negócio. E não porque eu tenha medo de afirmar ou me faltem informações pra afirmar isso. É só porque, embora o custo unitário da garrafita seja de 0,31 centavos (o melhor até agora), tu nunca vai pegar uma longnet, deixar três moedinhas de 0,10 e uma de 0,01 (ainda existem aqui) e sair faceiro. Porque, assim como a cerveja do El Corte Inglês, essa aqui só se compra naquele formato que sempre me faz pensar em boysband: o six pack.

Tá, mas do que tu tá falando, devem estar se perguntado. E eu respondo: é mesmo, parece que bebi (e bebi mesmo, isso aqui é sobre cerveja). Mas tem razão, vamos recuperar um pouco de informação.

Pra ir a fundo, pra ser sério, nas pesquisas a respeito do submundo marca-própria da cerveja lusitana, não basta descobrir rótulos, é preciso descobrir os pontos de venda. Pois a primeira curiosidade, portanto, da cerveja em questão é o supermercado que a comercializa (e banca sua produção): o LIDL. Não se preocupe, ninguém aqui está bêbado de enrolar a língua. É impossível mesmo dizer LIDL (é assim que se escreve). Bom, e, além de impronunciável, é um ambiente estranho. Não sei, parece sempre que estou num super de uma cidade do Texas num filme dos Irmãos Coen. Mas não é, é em Lisboa, e tem sua marca-própria, que não é LIDL, mas sim a supracitada: Argus.

E, olha, tinha um medo gigantesco de ter rasgado 1 rico euro mais nem tão ricos 89 centavos comprando, de uma vez, 6 longnets de uma cerveja que eu nunca tinha visto. Mas aí é que tá, camarada. Apesar de um começos de desconfiado, de ter uma informação esquisita no rótulo, um “original 1844 A.D.” (que faz parecer um papo pra boi beber, logo uma cerveja ruim), quando a gente toma a primeira das 6 obrigatórias e incontornáveis garrafinhas, opa, o slogan – que também tá no rótulo – resolve fazer sentido: o sabor da descoberta, ele diz. E nós concordamos. Porque a Argus, meus amigos, poderia entrar, sim, na categoria cerveja sem o aposto marca-própria. É boa a Argus. Comparável, creio, com a Super Bock. Tá, acho que eu não iria até o LIDL só pra comprar ela. Mas, se passasse por lá, não era má ideia comprar umas garrafinhas pra deixar de estepe na geladeira. 5,0% de álcool e consistência e gosto de acordo com esse volume. Eis Argus. Por enquanto, a campeã dessa minha saga.

Ah, sim, como não. E, como se não nos bastassem suas qualidades gustativo-etilicas, a dona Argus, ainda por cima, nos brinda com momentos de diversão no seus contra-rótulo (ou seja lá como se chama onde vem as informações técnicas). A orientação

Comé que faz pra consumir antes de ver o rótulo, seu Argus?

sobre a validade do produto faz da simpática Argus, sem dúvida, a cerveja preferida do Mister M, do David Coperfield e, claro, do Tio Tony: “Consumir de preferência antes de: ver o rótulo ou garrafa”. Oh, yes. Entendi. É pra beber de olhos vendados. Ou com os olhos fechados, fazendo aquele Ah inaugural, marca-registrada do primeiro gole de cerveja.

Harmoniza bem com: um honestíssimo bolinho de bacalhau (servido em porção de seis, não vendemos unidade)

P.S (ou saideira do post): senhoras e senhores, minhas profundas pesquisas e investigações no Google acabam de revelar que o LIDL é um supermercado alemão. E que há outras variedades de Argus em outros lugares, como a Polônia, outro pais em que os homens se caracterizam por uma proeminente barriga de cerveja. Quer dizer, talvez isso explique a qualidade dessa marca-própria de um super alemão. Mas a informação pra beber de luz apagada não se explica ainda assim.

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